Newsletter #11 — Entrelaçar Rizomas no Espaço Cívico: Colaboração e Prestação de Contas
Algumas propostas de reflexão sobre como cuidar de identidades que se constroem em relação.
Olá!
Em tempos de estreitamento do espaço cívico, torna-se cada vez mais evidente que nenhuma organização floresce em isolamento. As Organizações de Economia Social (OES) habitam ecossistemas densos e voláteis, sustentados em relações, alianças, tensões, adaptações contínuas, aprendizagens partilhadas e cuidados mútuos. É nesses encontros — nem sempre fáceis, mas profundamente férteis — que se constroem caminhos de resistência, de legitimidade e de futuro.
Nesta paragem da nossa viagem, propomos olhar a colaboração não como um ideal abstrato ou um mero requisito formal, mas como prática viva, profundamente ligada à forma como prestamos contas e partilhamos responsabilidades.
Inspiramo-nos, para isso, na metáfora das “identidades rizoma”, proposta por Édouard Glissant (2005): identidades que não se impõem nem excluem, mas que vivem e se constroem no encontro com outras identidades.
Num contexto global de contração de liberdades e de fragmentação do tecido cívico, perguntamo-nos: como podem as OES cuidar das suas identidades rizoma?
Colaborar: Possibilidade ou Utopia? — um exercício de escuta atenta
A colaboração é frequentemente evocada em discursos institucionais, mas nem sempre encontra tradução nas práticas quotidianas. Protocolos formais coexistem, por vezes, com relações frágeis, redes de desconfiança, parcerias com lógicas competitivas.
Ainda assim, colaborar continua a ser uma condição essencial para:
fortalecer uma ação coletiva;
partilhar recursos, saberes e responsabilidades;
construir narrativas comuns, baseadas em evidências e retroalimentação, em referenciais, conhecimentos e visões de mundo plurais;
e reforçar a legitimidade do setor da Economia Social no espaço público.
É neste enquadramento que partilhamos convosco um novo episódio do Podcast Católica Economia Social, dedicado precisamente a estas tensões e inquietações.
Neste quinto encontro, conversámos sobre o tema “Colaborar: Possibilidade ou Utopia?”, com Rita Leote, Diretora Executiva da Plataforma Portuguesa das Organizações Não Governamentais para o Desenvolvimento (PPONGD), e Joaquim Pequicho, Vice-Presidente e Diretor Executivo da CONFECOOP – Confederação Cooperativa Portuguesa.
Juntos, refletimos sobre os desafios e as potencialidades da colaboração no setor da Economia Social em Portugal, a partir de experiências concretas de articulação em rede e de liderança em estruturas de cúpula. Falámos sobre:
diferentes formas de colaboração — da partilha informal às redes estruturadas;
os riscos de parcerias meramente simbólicas;
a importância da prestação de contas horizontal (i.e. entre pares);
o papel da colaboração na construção de narrativas comuns e de resiliência.
Esperamos que desfrutem do episódio e que participem no debate!
Tecendo Nós — uma atividade de reflexão
Pensar a colaboração é, inevitavelmente, pensar a Prestação de Contas para lá das relações verticais. Prestar contas não é apenas reportar a financiadores ou reguladores; é também:
tornar visíveis compromissos partilhados;
explicitar papéis e responsabilidades em rede;
criar espaços de aprendizagem mútua;
reconhecer dependências e interdependências.
A Prestação de Contas ganha, assim, uma dimensão relacional, coletiva e política — um exercício que se tece com outros, não em isolamento nem em dominação. É neste espírito que retomamos uma proposta prática já partilhada noutros momentos do Projeto: uma atividade presente no Manual “Rumo à Transparência” que, a partir de seis princípios definidos pelo educador social Oscar Jara, convida as organizações a mapear:
relações existentes;
recursos partilhados;
papéis assumidos em redes e parcerias;
desafios e tensões do trabalho colaborativo.
Um exercício simples, mas potencialmente revelador, para reconhecer o que já está tecido e imaginar novos nós possíveis nesta horta comunitária que é o setor da Economia Social.
Um repositório colaborativo — um espaço de partilha
Cuidar identidades rizoma implica também tornar visíveis os princípios que orientam uma ação coletiva. É neste contexto que partilhamos convosco o Repositório de Códigos de Conduta, Regulamentos e Políticas, uma ferramenta que se pretende construída a várias mãos, reunindo referências a documentos em diferentes áreas temáticas e referentes ao setor da Economia Social.
O objetivo é simples: dar forma, colaborativamente, a um espaço de acesso e de partilha livre que apoie práticas mais conscientes, coerentes e transparentes no setor.
Uma horta comunitária cresce, pois, do cuidado partilhado. É no encontro entre a diversidade — de mãos, visões de mundo, saberes e experiências — que o terreno se transforma em espaço fértil, onde se plantam ideias, se combinam esforços e se colhem aprendizagens. Aqui, surge inevitavelmente o Mecanismo de Prestação de Contas Transparente enquanto, simultaneamente, sementeira e fruto de um trabalho conjunto — pensado com e para o setor da Economia Social, envolvendo pessoas e organizações de percursos e olhares muito diversos. Um Mecanismo que nos permite cuidar as identidades de cada organização em relação.
Num tempo que tantas vezes empurra para o isolamento, para a competição ou para a simplificação excessiva, a colaboração — quando genuína — é um gesto de cuidado, de responsabilidade e de resiliência.
E vocês, como cuidam das vossas identidades rizoma?
Até breve 🌱
A equipa do Projeto.



